Desculpas de um quinto pássaro
Outro pássaro disse à poupa: "Sou meu próprio inimigo. Como aventurar-me neste caminho se levo comigo o assaltante que deverá deter-me? Como posso viajar com um tal perseguidor? Minha alma concupiscente, minha alma de cão, não quer submeter-se; sequer sei como salvar minha alma espiritual. Reconheço bem o lobo no campo, porém este cão da alma, belo na aparência, ainda não me é bem conhecido. Estou na estupefação por causa desta alma infiel, e gostaria de saber se ela poderia ser-me conhecida afinal".
A poupa respondeu: "Ó tu que és como um cão vadio, sempre errante! Tu que és pisoteado como a terra! Tua alma é ao mesmo tempo vesga e caolha: como poderia servir-te de guia? Ela é vil como um cão, pesarosa e infiel. Se alguém se aproxima de ti, é somente porque está deslumbrado pelo falso brilho de tua alma. Quando escutas elogios, tua alma incha-se de orgulho, mesmo sabendo o quanto são injustificados. Não é bom para este cão que seja mimado e engordado artificialmente. O que foi tua infância senão um tempo de necessidades e ignorância, debilidade e despreocupação? Na metade da vida, tudo é individualismo e excentricidade, lutas e perigos, e o conhecimento de que neste mundo tu és um estranho. Então, quando a velhice se aproxima de nós, a alma torna-se lânguida e o corpo débil. Com uma vida assim desarrazoada, disposta dessa maneira pela loucura, como poderá a alma adquirir as qualidades espirituais? Vivemos na despreocupação do princípio ao fim, e é nada o resultado que obtemos. O homem acaba por obedecer à alma concupiscente que submete tanta gente. Freqüentemente um homem chega ao fim vazio, com nada em si senão um desejo pelas coisas exteriores. Milhares de corações sucumbiram nesta aflição, e o infiel cão da alma nunca morre".
O velho coveiro
Um coveiro praticou seu ofício até idade avançada. Um dia alguém lhe perguntou: "Tu que passaste a vida cavando buracos na terra, o que viste de mais notável durante esse tempo?" O coveiro respondeu: "O que mais me admira de tudo o que vi é meu cão da alma viu-me cavar túmulos durante setenta anos, mas ele próprio não morreu uma única vez nem obedeceu um só momento à lei de Deus, e isto é um prodígio!"
Outra história sobre Abbaçah
Certa noite Abbaçah disse: "Ó vós que estais aqui presentes! Suponhamos que os infiéis que enchem o mundo, até mesmo os loquazes turcomanos, aceitem sinceramente a fé - coisa que poderia acontecer. Porém, cento e vinte mil profetas foram enviados para a alma infiel converter-se de uma vez ou perecer. E isto, embora justo, não pôde feito. De onde vem a diferença entre esse esforço e o resultado?"
Todos nós estamos sob o domínio dessa alma infiel e desobediente, e nós mesmos a alimentamos; será fácil então destruí-la? Amparada como está pelos dois lados, seria admirável que ela perecesse. O espírito, como um cavaleiro, percorre com constância o reino espiritual; porém, dia e noite, esta alma vil é sua comensal. Por mais que o cavaleiro faça galopar seu cavalo, esta alma, como um cão, segue-o sempre, sem descanso. Tudo o que o coração recebe do objeto de seu amor, outro tanto é tomado, pela alma, do coração. No entanto, aquele que prende vigorosamente este cão colherá em sua rede o leão dos dois mundos. Aquele que subjuga este cão ultrapassa seus rivais até que eles não alcancem sequer a poeira de seu sapato; e se puder aprisioná-lo, o pó de seus sapatos terá mais valor que o sangue dos outros.
Pergunta de um rei a um dervixe
Um homem comprometido na via do espírito e coberto por farrapos ia por seu caminho quando encontrou um rei, que ao vê-lo lhe disse: "Ó tu que estás coberto de farrapos! Qual de nós é o melhor, tu ou eu?" O dervixe respondeu: "Ó ignorante! golpeia teu peito e guarda silêncio, tuas palavras são vazias como tua cabeça. Embora não me caiba fazer meu próprio elogio, pois aquele que louva a si mesmo não sabe o que diz, devo dizer que não há dúvida que um homem como eu é mil vezes melhor que um homem como tu. De fato, não conheces o gosto da fé, e tua alma concupiscente reduziu-te ao estado de um asno. Essa alma te domina, senhor, e estás curvado por seu peso, pois ela fez de ti sua montaria. Dia e noite tua cabeça está envolvida por um cabresto e só age sob suas ordens. Tudo o que ele ordena, a ti que não és próprio para nada, ação ou não-ação, deves fazê-lo sem réplica; mas eu, que conheço o segredo do coração, fiz do cão da alma o meu asno. Quando esta alma converteu-se em meu asno, eu a montei. Teu cão da alma te governa, mas se fizeres dele tua montaria, serás então como eu, cem mil vezes melhor que teus semelhantes".
Ó tu que te contentas com o cão da alma! Tu a quem devora o fogo da concupiscência! Sabe que este fogo seca a água de teu coração e tira a força de teu corpo. A escuridão dos olhos e a surdez dos ouvidos, a velhice, o enfraquecimento de teu espírito, o apagar de tua inteligência, tudo isto constitui um exército e seus soldados; e estes são, na realidade, servidores do príncipe da morte. Dia e noite, sem descanso, ele envia seu exército, envia-o pela frente e por trás, e quando este exército chega por todos os lados, tombas com tua alma longe do caminho. Tu que te divertes na companhia dos cães e te entregas ao prazer, porém foste convertido em escravo; o cão da alma é o teu senhor, e está submetido ao seu poder. Quando o rei da morte e seu cortejo se aproximarem, este cão da alma se separará de ti, e tu dele; mas se decidires separá-los agora um do outro, estarás submetido a essa separação? Não te entristeças por não estarem juntos neste mundo, pois certamente ele estará contigo no Inferno.
As duas raposas
Duas raposas encontraram-se e passaram a compartir a mesma comida. Juntas experimentavam tal deleite que um forte apego surgiu entre elas. Um rei que caçava na planície com suas panteras e falcões separou essas duas raposas. A fêmea perguntou então ao macho: "Ó caçador de tocas! quando nos encontraremos de novo?" Ele respondeu, enquanto abandonavam seu esconderijo: "Minha cara, se nos encontrarmos novamente será no peleteiro da cidade, pendurados numa estola."
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