Com a maré da manhã surgiu no céu uma lua.
De lá desceu e fitou-me.
Como o falcão que arrebata o pássaro,
essa lua agarrou-me e cruzou o céu.
Quando olhei para mim, já não me vi:
naquela lua meu corpo se tornara
por graça, sutil como a alma.
Viajei então em estado de alma
e nada mais vi senão a lua,
até que o segredo do saber divino
me foi por inteiro revelado:
as nove esferas celestes fundiram-se na lua
e o vaso do meu ser dissolveu-se inteiro no mar.
Quando o mar quebrou-se em ondas,
a sabedoria divina lançou sua voz ao longe.
Assim tudo ocorreu, assim tudo foi feito.
Logo o mar inundou-se de espumas,
e cada gota de espuma
tomou forma e corpo.
Ao receber o chamado do mar,
cada corpo de espuma se desfez
e tornou-se espírito do oceano.
Sem a majestade de Shams de Tabriz
não se poderia contemplar a lua
nem tornar-se mar.
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O poema narra o impacto de Rumi quando seu destino e o de Shams se cruzaram.
lua - símbolo da beleza humana. Lembremos que Mohammed é chamado "Lua do Islam" e também que a lua crescente é o símbolo do Islam.
Shams - sol; Rumi joga todo o tempo com o duplo sentido do nome Sol (Shams) de Tabriz. No verso final do poema ele usa o epíteto Shams ul-Haqq, o sol da verdade, para referir-se a Shams ud-Din.
falcão - simboliza a alma superior, que separada de sua origem divina, ela retorna mediante o toque do tambor, o chamado de seu senhor. Esta imagem é desenvolvida por Rumi no Masnavi (2:265-325), que conta a história de um falcão branco cujo bico e pés foram cortados por uma megera, que simboliza a natureza mundana.
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