15.10.11

Pai Nosso - D.H. Lawrence

Pois vosso é o reino,
o poder e a glória.

Santificado seja o vosso nome,
já que sois inonimado.

Dai a mim, além do pão
de cada dia,
meu reino, meu poder, minha glória.

Todas as coisas que para vós se voltam
têm seu reino, seu poder, sua glória.

Como o reino do rouxinol ao crepúsculo
cuja glória e poder eu já tanto ouvi e senti.

Como o reino da raposa nas trevas
uivando em seu poder, sua glória
que, para o ganso, é morte.

Como o poder e a glória desse ganso grasnando
na garoa à beira do lago.

E eu, homem desnudo, clamando
clamando a vós pelo meu mana,
meu reino, meu poder, minha glória.

Místico - D.H. Lawrence

Toda experiência dos sentidos eles dizem que é mística, quando a experiência é abordada.
Uma maçã assim se torna mística quando eu sinto nela o gosto
do verão e da neve, da selvagem confusão da terra
e da insistência do sol.

Todas coisas cujo gosto eu posso seguramente sentir numa boa maçã .
Há maçãs em que a água prepondera, de gosto aguado e azedo,
e outras que puxam mais para o sol, doce-salobras
como a água de uma laguna excessivamente insolada.

Se afirmo sentir numa maçã essas coisas, sou chamado de místico, ou seja, de mentiroso.
O único modo de comer uma maçã é abocanhá-la como um porco
e  não sentir gosto de nada
que seja real.

Mas eu, se como uma maçã, gosto de comê-la com os sentidos todos despertos.
O modo de a abocanhar como um porco é para mim uma alimentação de cadáveres.

Elementar - D.H. Lawrence

Por que é que as pessoas não param de ser amáveis
ou de pensar que são amáveis, ou de querer de amáveis,
e passam a ser um pouco mais elementares?

Como o homem é feito de elementos,
de fogo, chuva, ar e barro,
e como nada disso é amável
mas elementar,
o homem não pende inteiramente para o lado dos anjos.

Quero que os homens recuperem seu perdido equilíbrio entre os elementos
e sejam mais fogosos ao menos, tão incapazes de mentir
como o próprio fogo.

Quero que eles sejam fiéis à variação natural, que nem a água,
que passa da nascente ao vapor e chega ao gelo
sem perder a cabeça.

Eu estou cheio das pessoas amáveis,
que são, de alguma forma, uma mentira.

Bei Hennef - D.H. Lawrence

The little river twittering in the twilight,
The wan, wondering look of the pale sky,
This is almost bliss.

And everything shut up and gone to sleep,
All the troubles and anxieties and pain
Gone under the twilight.

Only the twilight now, and the soft "Sh!" of the river
That will last for ever.

And at last I know my love for you is here;
I can see it all, it is whole like the twilight,
It is large, so large, I could not see it before,
Because of the little lights and flickers and interruptions,
Troubles, anxieties and pains.

You are the call and I am the answer,
You are the wish, and I the fulfilment,
You are the night, and I the day.
What else - it is perfect enough.
It is perfectly complete,
You and I,
What more-?

Strange, how we suffer in spite of this.

Confiança - D.H. Lawrence

Ó temos de confiar
um de novo no outro
em pontos essenciais.

Não a estreita, mesquinha
confiança de barganha 
que diz: sou teu
se você for minha.

Mas uma confiança maior,
uma confiança do sol
que não se perturba em nada
com a ferrugem, as traças,
e que um no outro
nós vemos brilhando em cada.

Ó não me confie
não me sobrecarregue
com sua vida e questões: não me envolva
em suas preocupações.

Acho que é melhor confiar 
no sol em mim
que brilha exatamente com tanto
brilho quanto você vê
em mim, não mais.

E se ele esquenta
o cerne célere do seu coração,
confie pois nele, que forma 
uma fidelidade a mais.

E seja, ó seja
um sol para mim,
não uma enjoada, insistente
personalidade
mas um sol que cintila
e escurece, mas logo
cintila de novo e entrança
com o brilho do sol em mim

até ficarmos os dois
mais gloriosos
e ensolarados.


9.10.11

Terra Incognita - D.H. Lawrence

Há vastas esferas de consciência que nunca foram sonhadas
vastas sequências de experiências, como o arpejo de harpas invisíveis,
das quais nada sabemos, dentro de nós.
Quando o homem escapa do emaranhado de arame farpado
de suas próprias idéias e engenhos mecânicos
há um mundo maravilhoso e rico de contato e beleza pura e fluídica
e destemida percepção face a face da vida nua de agora
e eu e você e outras mulheres e homens
e vinhas vampiros aparições luares verdes
e braços corados cor de laranja cortando o limbo
do ar ignoto e olhos tão meigos
mais meigos do que o espaço que permeia as estrelas
e tudo e nada e ser não ser
em palpitações alternadas,
quando escapamos finalmente do cercado de arame
farpado do Conhece a Ti Mesmo, sabendo que saber não podemos,
só podemos tocar admirar ponderar empreender nosso esforço
e pender com fastio num prazer final refinado
tal como a fúcsia, que deixa sua gota púrpura
negligente pender depois de tanto esgalhar-se
e morosa montar o seu prodígio de uma árvore anã.

The Sea, The Sea - D.H. Lawrence


The sea dissolves so much
and the moon makes away with so much
more than we know --

Once the moon comes down
and the sea gets hold of us
cities dissolve like rock-salt
and the sugar melts out of life
iron washes away like an old blood-stain
gold goes out into a green shadow
money makes even no sediment
and only the heart
glitters in salty triumph
over all it has known, that has gone now
into salty nothingness.

As Águas Secretas - D.H. Lawrence

Tudo o que se perdeu é achado
tudo que foi ferido é curado,
a chave da vida nos corpos dos homens
abre as fontes da paz novamente.

As fontes da paz, as fontes da paz
emanam mansas num aumento
capaz de borbulhar sob a parede pesada
da casa da vida que enclausura a todos.

Borbulham pois sob a parede em questão
do que antes foi a casa, e agora é bruta prisão,
sem que nunca um de nós tome consciência
de que as águas subiram na maior veemência.

Nenhum de nós sabe, nenhum de nós sabe
que a nascente da paz jorra e desponta
em segredo por baixo das paredes imundas
da casa-cárcere que a todos aprisiona.

E jamais saberemos, jamais saberemos
até que as secretas águas transbordem
abalando os tijolos e aquela sólida massa
das paredes nas quais a nossa vida se passa.

Até que o abalo das paredes desague
em fendas, brechas, a casa inteira naufrague
sobre nós e o estrondo de libertação que ela faz
seja morte para todos, no aguaceiro da paz.


5.10.11

Somos Transmissores - D.H. Lawrence

Somos, ao viver, transmissores de vida.
Quando deixamos de transmitir vida, ela a vida também deixa de fluir em nós.

É parte do mistério do sexo, isto é fluxo à frente.
Gente assexuada não transmite nada.

Mas se chegamos, trabalhando, a transmitir vida ao trabalho,
a vida, ainda mais vida, se lança em nós compensando, se mostrando disposta a tudo
e pelos dias dia que vêm nos encrespamos de vida.

Mesmo que seja uma mulher fazendo um simples pudim, ou um homem
                  fazendo um tamborete,
se a vida entrar nesse pudim ele é bom
bom é o tamborete,
contente fica a mulher, com a vida nova que encrespa,
contente fica esse homem.

Dê que também lhe será dado
é ainda a verdade da vida.
Mas não é assim tão fácil.
Dar vida não quer dizer passá-la adiante a algum bobo indigno, nem deixar que os
                 mortos-vivos te suguem.
Quer dizer acender a qualidade da vida onde ela não se encontrava,
mesmo que seja apenas na brancura de um lenço lavado.

Fique quieto! - D. H. Lawrence

A única coisa a ser feita, agora,
agora, que as ondas da nossa destruição começaram a bater em nós,
é nos conter.

Ficarmos quietos, e deixar que nossos destroços avancem,
deixar tudo ir, enquanto as ondas nos esmagam,
mesmo assim ficarmos quietos,
e segurar a minúscula semente de algo que nenhuma onda pode carregar,
nem mesmo a mais maciça onda do destino.

Entre todos os esmagados fragmentos de mim mesmo ficar quieto, e esperar.
Pois a palavra é Ressurreição;
E mesmo o mar dos mares terá de devolver seus mortos.

Autopiedade - D. H. Lawrence

Nunca vi um animal selvagem com pena de si mesmo.
Um passarinho cairá gelado e morto de um galho sem jamais ter sentido pena de si mesmo.

Aristocracia do sol - D. H. Lawrence

Para ser um aristocrata do sol você não precisa de ninguém inferior para enaltecê-lo;
você recebe sua nobreza diretamente do sol
deixe outras pessoas serem o que elas podem.

Sou o que sou
a partir do sol,
e as pessoas não são minha medida.
Talvez, se começássemos corretamente, todas as crianças cresceriam ensolaradas
e aristocratas do sol.

Não precisamos de pessoas mortas, escravas do dinheiro e vermes sociais.
Meu filho,
Você é um ser.
Existe na medida do mundo.
É pouco.
O mundo é a constatação da realidade exterior que te cerca.
É a tua medida inicial.
É o teu começo mas não o teu fim.
É o chão da tua expressividade pois você é um ser vertical.
Para cima do chão há o “invisível”.
Você pode olhar os seus pés mas não a sua própria imagem.
Esta você a percebe.
Na verticalidade está a medida da sua procura.
Quando você aceitar a simples constatação da vida, aí sim, será o seu começo.
O primeiro sentimento será de perda pois tudo que cai na constatação é vivido como ganho.
Tudo adquirido como perda até a integração absoluta do “o percebido” no seu interior.
É a própria dinâmica da vida: perde-ganha.
Quando você se sentir no mais absoluto desespero você está sendo salvo.
Solte e aceite a tua intuição que te levará a uma aparente solução – solução esta sempre provisória.
Aceite o provisório pois jamais o processo pode parar.
A vida pode vir a ser uma realidade extraordinária desde que você esteja voltado para sua procura interior.
Não há realidade independente do “interior de si”.
Desconfie das coisas claras, a pureza é descoberta dentro da maior conturbação de uma crise. É o ponto luminoso dentro da maior escuridão.
O teu corpo meu filho, é o veículo da tua vivência.
Não o impeça de florir por nada. Cuide dele como você cuida do teu carro.
Toda a tua riqueza interior vai suá-lo, sujá-lo, e até sangrá-lo.
Quando ele estiver gasto externamente você mesmo estará mais inteiriço e completo interiormente.
Você o despirá um dia como a crisálida deixa o casulo.
Ai de você se neste momento você é ainda o início não elaborado pois aí você vai saber que esteve permanentemente morto em vida.

de Lygia Clark, 1970.

Nãos - D. H. Lawrence

Lute sua pequena luta, meu garoto
lute e seja um homem.
Não seja um bom menino, um bom moço
sendo tão bom quanto você pode ser
e concordando com todas matreiras, manhosas
verdades que os fingidos encenam
para se protegerem e à sua ávida, gulosa
covardia de escolados grosseiros.

Não corresponda à queridinha que acaba
por custar sua macheza e  te fazendo pagar.
Nem à velha mamãezona que orgulhosamente se gaba
de que você vai fazer seu caminho.

Não conquiste opiniões valiosas, abalizadas
opiniões valendo obrigações do Tesouro,
de homens de todo tipo; não fique devendo nada
ao rebanho engordando para o matadouro.

Não queira ter meninos bons, bonitinhos,
os quais você terá de educar
para ganhar a vida; nem meninas boas, uns docinhos
que não achar muito difícil trepar.

Também não queira uma casinha, com os custos
que você terá de aguentar
ganhando a vida enquanto a vida se perde
e o susto da morte um dia vem ter agarrar.

Não se deixe sugar pelo sup-superior,
não engula a isca da cultura,
não beba, não vira um cervejado senhor,
aprenda, a discriminar.

Mantenhas-se inteiro e lute atento,
empurrando daqui ou empurrando de lá,
e tendo à noite o consolador sentimento
de que um pouco de ar você fez entrar.

No chiqueiro do dinheiro esse ar renovado
abriu um pequeno buraco na prisão sagrada,
fazendo o pouco que pode, fazendo sua pequena tentativa
em que Cristo ressuscitado poderá ascender.


23.11.10

Capítulo XXI d' A linguagem dos pássaros - Farid Ud-Din Attar

Desculpas de um quinto pássaro

           Outro pássaro disse à poupa: "Sou meu próprio inimigo. Como aventurar-me neste caminho se levo comigo o assaltante que deverá deter-me? Como posso viajar com um tal perseguidor? Minha alma concupiscente, minha alma de cão, não quer submeter-se; sequer sei como salvar minha alma espiritual. Reconheço bem o lobo no campo, porém este cão da alma, belo na aparência, ainda não me é bem conhecido. Estou na estupefação por causa desta alma infiel, e gostaria de saber se ela poderia ser-me conhecida afinal".