23.11.10

Capítulo XXI d' A linguagem dos pássaros - Farid Ud-Din Attar

Desculpas de um quinto pássaro

           Outro pássaro disse à poupa: "Sou meu próprio inimigo. Como aventurar-me neste caminho se levo comigo o assaltante que deverá deter-me? Como posso viajar com um tal perseguidor? Minha alma concupiscente, minha alma de cão, não quer submeter-se; sequer sei como salvar minha alma espiritual. Reconheço bem o lobo no campo, porém este cão da alma, belo na aparência, ainda não me é bem conhecido. Estou na estupefação por causa desta alma infiel, e gostaria de saber se ela poderia ser-me conhecida afinal".

Os pássaros cantam - Hafiz

    No galho mais alto do cipreste o rouxinol cantou, uma destas noites, para aqueles que o compreendiam, este canto, na divina linguagem pélevi:
    "-Vem!  A roseira está em chamas como a sarça ardente de Moisés. Aprende com ela o mistério da Unidade Divina.
    "Os pássaros do jardim cantam e brincam para que o Amo possa beber seu vinho ouvindo canções na língua do passado.
    "Feliz do mendigo que dorme sobre seu tapete usado: é uma alegria, esta, desconhecida dos que trazem coroa.
    "De quantas riqueza possuía, Djemschid, ao deixar este mundo, apenas levou consigo a sua taça. Não te prendas a outros bens senão àqueles que podes levar contigo."
    Bela palavra a de certo velho camponês a seu filho:  "-Possas tu, ó luz dos meus olhos sempre semear o que desejares colher!"
    Talvez o escanção tenha enchido de mais a taça de Hafiz: seu turbante não está bem preso à cabeça.

Os olhos de narciso - Hafiz

      Onde se encontra o espírito feliz, cintilante de alegria, a quem o amante de coração partido pode confiar o seu desejo?
      Embora o caminho do Amor seja cheio de ciladas em que nos espreitam flechas cruéis, aquele que ao atravessá-lo usa da astúcia pode triunfar de todos os perigos.
     A taça cura a aflição. Não a deixes   ou serás vencido pela tristeza.
     Ó jardineiro, quanto sofres com o outono! Gemo ao recordar, contigo, aquele dia em que o vento murchou tantas rosas.
    O tempo, esse vagabundo, não dorme nunca. Não te fies nele, não penses que ele esquece. Se hoje ele não te levou, amanhã, sem dúvida, serás presa dele.
    Temo que os olhos de narciso da minha Amada venham a reduzir ao nada a ciência e a sabedoria que meu coração acumulou depois de tantos anos.
     Hafiz! se a Bem Amada quer a tua alma, deixa partir a tua alma em suas mãos.

A chama oculta - Hafiz

    Fiz um pacto com a Bem Amada. Enquanto a alma habitar o meu corpo, amarei como a mim próprio todos aqueles que vivem à sua sombra.
    Se tenho comigo aquilo que por tanto tempo foi o meu desejo, que me importam os rumores e as mentiras da multidão?
   Ó Velador, praza aos Céus que esta noite feches por um instante os olhos, para que eu possa murmurar baixinho minha queixa de amor sobre os seus lábios mudos.
   Que me importam as tulipas e as rosas, se, pela graça do Céu, eu tenho, para mim só, todo o jardim!
   O vinho que bebo é tão doce e tão forte! E a Amada é tão bela, mais bela que todas as imagens do mundo!
   O rubi dos seus lábios é tão poderoso como o sinete de Suleimão.
   Chegou ao termo o longo jejum. Hafiz, não chores mais.

21.11.10

Sob o pálio do céu - Hafiz

            Uma brisa paradisíaca sopra no jardim - e eis-me com a Bem Amada e uma taça de vinho.
            Como poderia, hoje, o mendigo deixar de julgar-se um rei, sob o dossel do céu bordado de nuvens, no livre palácio da erva?
            O prado conta-lhe contos do Paraíso. Insensato aquele que dissipa em prazeres vindouros a moeda do presente.
             Que o vinho te reconforte o coração, pois o mundo é um deserto e, ao fim de tudo, o teu pó se misturará com argila do oleiro.
             Não escrevais o meu nome acompanhado de uma injúria. Não me chameis de bêbado. Quem sabe o que o destino gravou em minha fronte?
            Viajante, não te desvies da sepultura de Hafiz. Embora sujo de pecados talvez seja ele o bem vindo, entre todos, nos Céus.

A cortesã - Hafiz

        O castelo de nossa esperança assenta em bases frágeis. Uma lufada de vento abate em uma hora a casa da vida.
        Quero dar-te um conselho. Guarda-o na memória, e que ele te oriente as ações. Recebi-o, outrora, de um velho guia no caminho da vida:
        "Não esperes nada do que te prometeu o mundo falaz. A terra é uma cortesã que teve milhares de amantes."
        Contenta-se do teu quinhão, e apaguem-se as rugas de tua fronte inquieta: a porta dos eleitos não está aberta a mim nem a ti.
        O sorriso da Rosa nada promete, nem sequer fidelidade. Chora, Rouxinol, esse lamentável destino.
        Porque então, ó maus rimadores, tendes ciúmes de Hafiz, se Deus permitiu abrir a fonte das palavras suaves e capturar todos os corações?

Não te aflinjas!... - Hafiz

          Não te aflijas: a beleza voltará a deliciar-te com o seu encanto; a cela de tristeza se transformará um dia em jardim de rosas.
          Não te aflijas, coração sofredor: o teu mal se transmutará em bem; não te detenhas a pensar no que te inquieta: esse espírito agitado conhecerá de novo a paz.
         Não te aflijas: mais uma vez vai reinar a vida no jardim em que suspiras, e breve, ó cantor da noite, verás sobre a tua fronte uma cortina de rosas.
          Não te aflijas se, por instantes, as esferas estreladas não giram à feição dos teus desejos: a roda do tempo não anda sempre na mesma direção.
          Não te aflijas se, por amor do santuário, avanças no deserto e os espinhos te ferem.
          Não te aflijas, minha alma, se a torrente dos dias faz em ruínas a tua morada mortal: tens Amor para te salvar desse dilúvio.
          Não te aflijas se a viagem é rude e a meta invisível: não há caminho sem termo.
          Não te aflijas, ó Hafiz, no humilde recanto em que te julgas pobre e na desolação das noites escuras: ainda tens o teu canto e o teu amor.

20.11.10

Processos alquímicos

     Ibn 'Arabi faz menção na Alquimia da Felicidade de três processos alquímicos ou etapas fundamentais da Grande Obra: a "obra ao negro" (nigredo em latim), a "obra ao branco" (albedo) e a "obra ao vermelho" (subdividida em citrinas e iosis).
   "Na obra ao negro, o homem afasta-se da ilusão cósmica, para mergulhar no oceano cósmico, que é fêmea. É uma espécie de morte, uma 'descida ao inferno'. É a preparação do mercúrio, a matéria sutil do mundo. (...)
 Na obra ao branco, o alquimista serve-se dos aspectos sutis potenciais da matéria para alcançar a luz do Intelecto. Na frente dele, a "matéria" cósmica torna-se transparente na pureza virginal da Alma do Mundo (...).  A obra ao branco é um estágio intermediário, assim como a prata coloca-se entre os metais inferiores e o ouro. O branco é a síntese de todas as cores, assim é também a obra ao branco, uma integração que prepara a matéria a seu destino espiritual final. A obra ao vermelho é a etapa final da purificação da alma, que se transforma em ouro na luz do Espírito que a envolve e a atravessa. (...) Esta é a fase da "união química" final, onde o enxofre "'fixa" o mercúrio, onde o Sol conjunge a Lua, onde o Espírito desposa a alma".

L'Epistola dei Settanta Veli, Ibn 'Arabi (tradução italiana de A. Iacovella, Roma, 1997.)

15.11.10

Uma nova regra - Rumi

É a regra para os bêbados cair uns sobre os outros,
discutir, ser violento, e fazer cena.
O amante é ainda pior do que o bêbado.
Vou dizer-lhe que é o amor: adentrar uma mina de ouro.
E o que é esse ouro?

O amante é um rei acima de todos os reis,
sem medo da morte, não absolutamente interessado em uma coroa de ouro.
O dervixe tem uma pérola escondida sob o manto remendado.
Por que ele deveria ir mendigar de porta em porta?


Ontem à noite, a lua apareceu,
bêbada, soltando a roupa na rua.
"Levante-se," Eu disse ao meu coração: "Dê a alma um copo de vinho.
Chegou o momento para se juntar ao rouxinol no jardim, 
de saborear o açúcar com a alma do papagaio".

Eu caí, com meu coração em pedaços -
Onde, senão no seu caminho? E eu
quebrei sua  bacia, bêbado, meu ídolo, tão bêbado,
não me deixe ser prejudicado, pegue minha mão.

A nova regra, uma nova lei nasceu:
quebrar todos os vidros e cair em direção ao assoprador de vidros.

Kulliyat-e Shams, 21 - Rumi

 O intelectual está sempre se expondo,
o amante está sempre ficando perdido.
O intelectual foge.
medo de se afogar;
todo o negócio do amor
é para se afogar no mar.
Intelectuais planejam seu repouso;
Os amantes têm vergonha de descansar.
O amante está sempre sozinho.
mesmo cercado de pessoas;
como água e óleo, ele permanece distante.
O homem que se dá o trabalho
de oferecer conselhos a um amante
não recebe nada. Ele é zombado por paixão.
O amor é como a música. Atrai a atenção.
O amor é uma árvore, e os amantes são sua sombra.

14.11.10

Sobre Conhecimento e Ensino - Gibran Khalil Gibran

E um homem disse: “Fala-nos do conhecimento de si próprio.”
E ele respondeu, dizendo:
“Vosso coração conhece em silêncio os segredos dos dias e das noites;
Mas vossos ouvidos anseiam por ouvir o que vosso coração sabe.
Desejais conhecer em palavras aquilo que sempre conhecestes em pensamento.
Quereis tocar com os dedos o corpo nu de vossos sonhos. E é bom que o desejeis.
A nascente secreta de vossa alma precisa brotar e correr, murmurando para o mar;
E o tesouro de vossas profundezas ilimitadas precisa revelar-se a vossos olhos.
Mas não useis balanças para pesar vossos tesouros desconhecidos;
E não procureis explorar as profundidades de vosso conhecimento com uma vara ou uma sonda,
Porque o Eu é um mar sem limites e sem medidas.
Não digais: ‘encontrei a verdade.’ Dizei de preferência ‘Encontrei uma verdade.’
Não digais: ‘Encontrei o caminho da alma.’ Dizei de preferência: ‘Encontrei a alma andando em meu caminho.’
Porque a alma anda por todos os caminhos.
A alma não marcha em linha reta nem cresce como um junco.
A alma desabrocha, qual um lótus de inúmeras pétalas.”
Então, um professor disse: “Fala-nos do ensino.”
E ele respondeu, dizendo:
“Homem algum poderá revelar-vos senão o que já está meio adormecido na aurora do vosso entendimento.
O mestre que caminha à sombra do templo, rodeado de discípulos, não dá de sua sabedoria, mas sim de sua fé e de sua ternura.
Se ele for verdadeiramente sábio, não vos convidará a entrar na mansão de seu saber, mas vos conduzirá antes ao limiar de vossa própria mente.
O astrônomo poderá falar-vos de sua compreensão do espaço, mas não vos poderá dar a sua compreensão.
O músico poderá cantar para vós o ritmo que existe em todo o universo, mas não vos poderá dar o ouvido que capta a melodia, nem a voz que a repete.
E o versado na ciência dos números poderá falar-vos do mundo dos pesos e das medidas, mas não vos poderá levar até lá.
Porque a visão de um homem não empresta suas asas a outro homem.
E assim como cada um de vós se mantém isolado na consciência de Deus, assim cada um deve ter sua própria compreensão de Deus e sua própria interpretação das coisas da terra.”

livro “O profeta”

Os Níveis do Ser Humano

Há alguns anos, um buscador aproximou-se de um Mestre da Arte Real (um verdadeiro Místico) e perguntou-lhe:

- Mestre, gostaria muito de saber por que razão os seres humanos guerreiam-se e por que não conseguem entender-se, por mais que apregoem estar buscando a Paz e o entendimento, por mais que apregoem o Amor e por mais que afirmem abominar o Ódio.

- Essa é uma pergunta muito séria. Gerações e gerações a têm feito e não conseguiram uma resposta satisfatória, por não se darem conta de que tudo é uma questão de nível evolutivo. A grande maioria da Humanidade do Planeta Terra está vivendo atualmente no nível 1. Muitos outros, no nível 2 e alguns outros no nível 3. Essa é a grande maioria. Alguns poucos já conseguiram atingir o nível 4, pouquíssimos o nível 5, raríssimos o nível 6 e somente de mil em mil anos aparece algum que atingiu o nível 7.

- Mas, Mestre, que níveis são esses?

- Não adiantaria nada explicá-los, pois além de não entender, também, logo em seguida, você os esqueceria e esqueceria também a explicação.

Assim, prefiro levá-lo numa viagem mental, para realizar uma série de experimentos e aí, então, tenho certeza, você vivenciará e saberá exatamente o que são esses níveis, cada um deles, nos seus mínimos detalhes.

Colocou, então, as pontas de dois dedos na testa do consulente e, imediatamente, ambos estavam em um outro local, em outra dimensão do Espaço e do Tempo.

O local era uma espécie de bosque, e um homem se aproximava deles. Ao chegar mais perto, disse-lhe o Mestre:

- Dê-lhe um tapa no rosto.

- Mas por quê? Ele não me fez nada…

- Faz parte do experimento. Dê-lhe um tapa, não muito forte, mas dê-lhe um tapa!

E o homem aproximou-se mais do Mestre e do consulente. Este, então, chegou até o homem, pediu-lhe que parasse e, sem nenhum aviso, deu-lhe um tapa que estalou.
Imediatamente, como se fosse feito de mola, o desconhecido revidou com uma saraivada de socos e o consulente foi ao chão, por causa do inesperado do ataque.
Instantaneamente, como num passe de mágica, o Mestre e o consulente já estavam em outro lugar, muito semelhante ao primeiro e outro homem se aproximava. O Mestre, então comentou:

- Agora, você já sabe como reage um homem do nível 1. Não pensa. Age mecanicamente. Revida sem pensar. Aprendeu a agir dessa maneira e esse aprendizado é tudo para ele, é o que norteia sua vida, é sua “muleta”. Agora, você testará da mesma maneira, o nosso companheiro que vem aí, do nível 2.

Quando o homem se aproximou, o consulente pediu que parasse e lhe deu um tapa. O homem ficou assustado, olhou para o consulente, mediu-o de cima a baixo e, sem dizer nada, revidou com um tapa, um pouco mais forte.
Instantaneamente, já estavam em outro lugar muito semelhante ao primeiro.

- Agora, você já sabe como reage um homem do nível 2. Pensa um pouco, analisa superficialmente a situação, verifica se está à altura do adversário e aí, então, revida. Se se julgar mais fraco, não revidará imediatamente, pois irá revidar à traição. Ainda é carregado pelo mesmo tipo de “muleta” usada pelo homem do nível 1. Só que analisa um pouco mais as coisas e fatos da vida. Entendeu? Repita o mesmo com esse aí que vem chegando.
A cena repetiu-se. Ao receber o tapa, o homem parou, olhou para o consulente e assim falou:

- O que é isso, moço?… Mereço uma explicação, não acha? Se não me explicar direitinho por que razão me bateu, vai levar uma surra!
Estou falando sério!

- Eu e o Mestre estamos realizando uma série de experimentos e este experimento consta exatamente em fazer o que fiz, ou seja, bater nas pessoas para ver como reagem.

- E querem ver como reajo?

- Sim. Exatamente isso…

- Já reparou que não tem sentido?

- Como não? Já aprendemos ótimas lições com as reações das outras pessoas. Queremos saber qual a lição que você irá nos ensinar…

- Ainda não perceberam que isso não faz sentido? Por que agredir as pessoas assim, gratuitamente?

- Queremos verificar – interferiu o Mestre – as reações mais imediatas e primitivas das pessoas. Você tem alguma sugestão ou consegue atinar com alguma alternativa?

- De momento, não me ocorre nenhuma. De uma coisa, porém, estou certo: – Esse teste é muito bárbaro, pois agride os outros. Estou, realmente, muito assustado e chocado com essa ação de vocês, que parecem pessoas inteligentes e sensatas. Certamente, deverá haver algo menos agressivo e mais inteligente. Não acham?

- Enfim – perguntou o buscador – como você vai reagir? Vai revidar?
Ou vai nos ensinar uma outra maneira de conseguir aprender o que desejamos?

- Já nem sei se continuo discutindo com vocês, pois acho que estou perdendo meu tempo. São dois malucos e tenho coisas mais importantes para fazer do que ficar conversando com dois malucos. Afinal, meu tempo é precioso demais e não vou desperdiçá-lo com vocês. Quando encontrarem alguém que não seja tão sensato e paciente como eu, vão aprender o que é agredir gratuitamente as pessoas. Que outro, em algum outro lugar, revide por mim. Não vou nem perder meu tempo com vocês, pois não merecem meu esforço… São uns perfeitos idiotas… Imagine só, dar tapas nos outros… Besteira… Idiotice… Falta do que fazer… E ainda querem me convencer de que estão buscando conhecimento… Picaretas! Isso é o que vocês são! Uns picaretas! Uns charlatães!

Imediatamente, aquela cena apagou-se e já se encontravam em outro lugar, muito semelhante a todos os outros. Então, o Mestre comentou:

- Agora, você já sabe como age o homem do nível 3. Gosta de analisar a situação, discutir os pormenores, criticar tudo, mas não apresenta nenhuma solução ou alternativa, pois ainda usa as mesmas “muletas” que os outros dois anteriores também usavam. Prefere deixar tudo “pra lá”, pois “não tem tempo” para se aborrecer com a ação, que prefere deixar para os “outros”. É um erudito e teórico que fala muito, mas que age muito pouco e não apresenta nenhuma solução para nenhum problema, a não ser a mais óbvia e assim mesmo, olhe lá… É um medíocre enfatuado, cheio de erudição, que se julga o “Dono da Verdade”, que se acha muito “entendido” e que reclama de tudo e só sabe criticar. É o mais perigoso de todos, pois costuma deter cargos de comando, por ser, geralmente, portador de algum diploma universitário em nível de bacharel (mais uma outra “muleta”) e se pavoneia por isso. Possui instrução e muita erudição. Já consegue ter um pouquinho mais de percepção das coisas, mas é somente isso. Ainda precisa das “muletas” para continuar vivendo, mas começa a perceber que talvez seja melhor andar sem elas. No entanto, por “preguiça vital” e simples falta de força de vontade, prefere continuar a utilizá-las. De resto, não passa de um medíocre enfatuado que sabe apenas argumentar e tudo criticar. Vamos, agora, saber como reage um homem do nível 4. Faça o mesmo com esse que aí vem.

E a cena repetiu-se.

O caminhante olhou para o buscador e perguntou:

- Por que você fez isso? Eu fiz alguma coisa errada? Ofendi você de alguma maneira? Enfim, gostaria de saber por que motivo você me bateu. Posso saber?

- Não é nada pessoal. Eu e o Mestre estamos realizando um experimento para aprender qual será a reação das pessoas diante de uma agressão imotivada.

- Pelo visto, já realizaram este experimento com outras pessoas. Já devem ter aprendido muito a respeito de como reagem os seres humanos, não é mesmo?

- É… Estamos aprendendo um bocado. Qual será sua reação? O que pensa de nosso experimento? Tem alguma sugestão melhor?

- Hoje, vocês me ensinaram uma nova lição e estou muito satisfeito com isso e só tenho a agradecer por me haverem escolhido para participar deste seu experimento. Apenas acho que vocês estão correndo o risco de encontrar alguém que não consiga entender o que estão fazendo e revidar à agressão. Até chego a arriscar-me a afirmar que vocês já encontraram esse tipo de pessoa, não é mesmo? Mas também se não corrermos algum risco na vida, nada, jamais, poderá ser conseguido, em termos de evolução. Sob esse ponto de vista, a metodologia experimental que vocês imaginaram é tão boa como outra qualquer. Já encontraram alguém que não entendesse o que estão a fazer e igualmente reações hostis, não é mesmo? Por outro lado, como se trata de um aprendizado, gostaria muito de acompanhá-los para partilhar desse aprendizado. Aceitar-me-iam como companheiro de jornada? Gostaria muito de adquirir novos conhecimentos. Posso ir com vocês?

- E se tudo o que dissemos for mentira? E se estivermos mal-intencionados? – perguntou o Mestre – Como reagiria a isso?

- Somente os loucos fazem coisas sem uma razão plausível. Sei, muito bem, distinguir um louco de um são e, definitivamente, tenho a mais cristalina das certezas de que vocês não são loucos. Logo, alguma razão vocês deverão ter para estarem agredindo gratuitamente as pessoas. Essa razão que me deram é tão boa e plausível como qualquer outra. Seja ela qual for, gostaria de seguir com vocês para ver se minhas conjecturas estão certas, ou seja, de que falaram a verdade e, se assim o for, compartilhar da experiência de vocês. Enfim, desejo aprender cada vez mais, e esta é uma boa ocasião para isso. Não acham?

Instantaneamente, tudo se desfez e logo estavam em outro ambiente, muito semelhante aos anteriores. O Mestre assim comentou:

- O homem do nível 4 já está bem distanciado e se desligando gradativamente dos afazeres mundanos. Já sabe que existem outros níveis mais baixos e outros mais elevados e está buscando apenas aprender mais e mais para evoluir, para tornar-se um sábio. Não é, em absoluto um erudito (embora até mesmo possa possuir algum diploma universitário) e já compreende bem a natureza humana para fazer julgamentos sensatos e lógicos. Por outro lado, possui uma curiosidade muito grande e uma insaciável sede de conhecimentos. E isso acontece porque abandonou suas “muletas” há muito pouco tempo, talvez há um mês ou dois. Ainda sente falta delas, mas já compreendeu que o melhor mesmo é viver sem elas. Dentro de muito pouco tempo, só mais um pouco de tempo, talvez mais um ano ou dois, assim que se acostumar, de fato, a sequer pensar nas muletas, estará realmente começando a trilhar o caminho certo para os próximos níveis. Mas vamos continuar com o nosso aprendizado. Repita o mesmo com este homem que aí vem, e vamos ver como reage um homem do nível 5.
O tapa estalou.

- Filho meu… Eu bem o mereci por não haver logo percebido que estavas necessitando de ajuda. Em que te posso ser útil?

- Não entendi… Afinal, dei-lhe um tapa. Não vai reagir?

- Na verdade, cada agressão é um pedido de ajuda. Em que te posso ajudar, filho meu?

- Estamos dando tapas nas pessoas que passam, para conhecermos suas reações. Não é nada pessoal…

- Então, é nisso que te posso ajudar? Ajudar-te-ei com muita satisfação pedindo-te perdão por não haver logo percebido que desejas aprender. É meritória tua ação, pois o saber é a coisa mais importante que um ser humano pode adquirir. Somente por meio do saber é que o homem se eleva. E se estás querendo aprender, só tenho elogios a te oferecer. Logo aprenderás a lição mais importante que é a de ajudar desinteressadamente as pessoas, assim como estou a fazer com vocês, neste momento. Ainda terás um longo caminho pela frente, mas se desejares, posso ser o teu guia nos passos iniciais e te poupar de muitos transtornos e dissabores. Sinto-me perfeitamente capaz de guiar-te nos primeiros passos e fazer-te chegar até onde me encontro. Daí para diante, faremos o restante do aprendizado juntos. O que achas da proposta? Aceitas-me como teu guia?

Instantaneamente, a cena se desfez e logo se viram em outro caminho, um pouco mais agradável do que os demais, e o Mestre assim se expressou:

- Quando um homem atinge o nível 5, começa a entender que a Humanidade, em geral, digamos, o homem comum, é como uma espécie de adolescente que ainda não conseguiu sequer se encontrar e, por esse motivo, como todo e qualquer bom adolescente, é muito inseguro e, devido a essa insegurança, não sabe como pedir ajuda e agride a todos para chamar atenção sobre si mesmo e pedir, então, de maneira velada e indireta, a ajuda de que necessita. O homem do nível 5 possui a sincera vontade de ajudar e de auxiliar a todos desinteressadamente, sem visar vantagens pessoais. É como se fosse uma Irmã Dulce, um Chico Xavier ou uma Madre Teresa de Calcutá da vida. Sabe ser humilde e reconhece que ainda tem muito a aprender para atingir níveis evolutivos mais elevados. E deseja partilhar gratuitamente seus conhecimentos com todos os seres humanos. Compreende que a imensa maioria dos seres humanos usa “muletas” diversas e procura ajudá-los, dando-lhes exatamente aquilo que lhe é pedido, de acordo com a “muleta” que estão usando ou com o que lhes é mais acessível no nível em que se encontram. A partir do nível 5, o ser humano adquire a faculdade de perceber em qual nível o seu interlocutor se encontra. Agora, dê um tapa nesse homem que aí vem. Vamos ver como reage o homem do nível 6.
E o buscador iniciou o ritual. Pediu ao homem que parasse e lançou a mão ao seu rosto. Jamais entenderá como o outro, com um movimento quase instantâneo, desviou-se e a sua mão atingiu apenas o vazio.

- Meu filho querido! Por que você queria ferir-se a si mesmo? Ainda não aprendeu que agredindo os outros você estará agredindo a si mesmo? Você ainda não conseguiu entender que a Humanidade é um organismo único e que cada um de nós é apenas uma pequena célula desse imenso organismo? Seria você capaz de provocar, deliberadamente, em seu corpo, um ferimento que vai doer muito e cuja cicatrização orgânica e psíquica vai demorar e causará muito sofrimento inútil?

- Mas estamos realizando um experimento para descobrir qual será a reação das pessoas a uma agressão gratuita.

- Por que você não aprende primeiro a amar? Por que, em vez de dar um tapa, não dá um beijo nas pessoas? Assim, em lugar de causar-lhes sofrimento, estará demonstrando Amor. E o Amor é a Energia mais poderosa e sublime do Universo. Se você aprender a lição do Amor, logo poderá ensinar Amor para todas as outras células da Humanidade, e tenho a mais concreta certeza de que, em muito pouco tempo, toda a Humanidade será um imenso organismo amoroso que distribuirá Amor por todo o planeta e daí, por extensão, emitirá vibrações de Amor para todo o Universo. Eu amo a todos como amo a mim mesmo. No instante em que você compreender isso, passará a amar a si mesmo e a todos os demais seres humanos da mesma maneira e terá aprendido a Regra de Ouro do Universo: – Tudo é Amor! A vida é Amor! Nós somos centelhas de Amor! E por tanto amar você, jamais poderia permitir que você se ferisse, agredindo a mim. Se você ama uma criança, jamais permitirá que ela se machuque ou se fira, porque ela ainda não entende que se agir de determinada maneira perigosa irá ferir-se e irá sofrer. Você a amparará, não é mesmo? Você deverá aprender, em primeiro lugar, a Lição do Amor, a viver o Amor em toda sua plenitude, pois o Amor é tudo e, se você está vivo, deve sua vida a um Ato de Amor. Pense nisso, medite muito sobre isso. Dê Amor gratuitamente. Ensine Amor com muito Amor e logo verá como tudo a seu redor vai ficar mais sublime, mais diáfano, pois você estará flutuando sob os influxos da Energia mais poderosa do Universo, que é o Amor. E sua vida será sublime…

Instantaneamente, tudo se desfez e se viram em outro ambiente, ainda mais lindo e repousante do que este último em que estiveram. Então o Mestre falou:

- Este é um dos níveis mais elevados a que pode chegar o Ser Humano em sua senda evolutiva, ainda na Matéria, no Planeta Terra. Um homem que conseguiu entender o que é o Amor, já é um Homem Sublime, Inefável e quase Inatingível pelas infelicidades humanas, pois já descobriu o Começo da Verdade, mas ainda não a conhece em toda sua Plenitude, o que só acontecerá quando atingir o nível 7. Logo você descobrirá isso. Dê um tapa nesse homem que aí vem chegando.
E o buscador pediu ao homem que parasse. Quando seus olhares se cruzaram, uma espécie de choque elétrico percorreu-lhe todo o corpo e uma sensação mesclada de amor, compaixão, amizade desinteressada, compreensão, de profundo conhecimento de tudo que se relaciona à vida e um enorme sentimento de extrema segurança encheram-lhe todo o seu ser.

- Bata nele! – ordenou o Mestre.

- Não posso, Mestre, não posso…

- Bata nele! Faça um grande esforço, mas terá que bater nele! Nosso aprendizado só estará completo se você bater nele! Faça um grande esforço e bata! Vamos! Agora!

- Não, Mestre. Sua simples presença já é suficiente para que eu consiga compreender a futilidade de lhe dar um tapa. Prefiro dar um tapa em mim mesmo. Nele, porém, jamais!

- Bate-me – disse o Homem com muita firmeza e suavidade – pois só assim aprenderás tua lição e saberás finalmente, porque ainda existem guerras na Humanidade.

- Não posso… Não posso… Não tem o menor sentido fazer isso…

- Então – tornou o Homem – já aprendeste tua lição. Quem, dentre todos em quem bateste, a ensinou para ti? Reflete um pouco e me responde.

- Acho que foram os três primeiros, do nível 1 ao nível 3. Os outros apenas a ilustraram e a complementaram. Agora, compreendo o quão atrasados eles estão e o quanto ainda terão que caminhar na senda evolutiva para entender esse fato. Sinto por eles uma compaixão muito profunda. Estão de “muletas” e não sabem disso. E o pior de tudo é que não conseguem perceber que é até muito simples e muito fácil abandoná-las e que, no preciso instante em que as abandonarem, começarão a progredir. Era essa a lição que eu deveria aprender?

- Sim, filho meu. Essa é apenas uma das muitas facetas do Verdadeiro Aprendizado. Ainda terás muito que aprender, mas já aprendeste a primeira e a maior de todas as lições. Existe a Ignorância! – volveu o Homem com suavidade e convicção – Mas ainda existem outras coisas mais que deves ter aprendido. O que foi?

- Aprendi, também, que é meu dever ensiná-los para que entendam que a vida está muito além daquilo que eles julgam ser muito importante – as suas “muletas” – e também sua busca inútil e desenfreada por sexo, status social, riquezas e poder. Nos outros níveis, comecei a entender que para se ensinar alguma coisa para alguém é preciso que tenhamos aprendido aquilo que vamos ensinar. Mas isso é um processo demorado demais, pois todo mundo quer tudo às pressas, imediatamente…

- A Humanidade ainda é uma criança , mal acabou de nascer, mal acabou de aprender que pode caminhar por conta própria, sem engatinhar, sem precisar usar “muletas”. O grande erro é que nós queremos fazer tudo às pressas e medir tudo pela duração de nossas vidas individuais. O importante é que compreendamos que o tempo deve ser contado em termos cósmicos, universais. Se assim o fizermos, começaremos, então, a entender que o Universo é um organismo imenso, ainda relativamente novo e que também está fazendo seu aprendizado por intermédio de nós – seres vivos conscientes e inteligentes que habitamos planetas disseminados por todo o Espaço Cósmico. Nossa vida individual só terá importância, mesmo, se conseguirmos entender e vivenciar, este conhecimento, esta grande Verdade: – Somos todos uma imensa equipe energética atuando nos mais diversos níveis energéticos daquilo que é conhecido como Vida e Universo, que, no final das contas, é tudo a mesma coisa.

- Mas sendo assim, para eu aprender tudo de que necessito para poder ensinar aos meus irmãos, precisarei de muito mais que uma vida. Ser-me-ão concedidas mais outras vidas, além desta que agora estou vivendo?

- Mas ainda não conseguiste vislumbrar que só existe uma única Vida e tu já a estás vivendo há milhões e milhões de anos e ainda a viverás por mais outros tantos milhões, nos mais diversos níveis? Tu já foste energia pura, átomo, molécula, vírus, bactéria, enfim, todos os seres que já apareceram na escala biológica. E tu ainda és tudo isso. Compreende, filho meu, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.

- Mas mesmo assim, então, não terei tempo, neste momento atual de minha manifestação no Universo, de aprender tudo o que é necessário ensinar aos meus irmãos que ainda se encontram nos níveis 1, 2 e 3.

- E quem o terá jamais, algum dia? Mas isso não tem a menor importância, pois tu já estás a ensinar o que aprendeste, nesta breve jornada mental. Já aprendeste que existem 7 níveis evolutivos possíveis aos seres humanos, aqui, agora, neste Planeta Terra. O Autor deste conto conseguiu transmiti-lo, há alguns milênios, através da Tradição Oral, durante muitas e muitas gerações. O Autor deste trabalho, ao ler esse conto, há muitos anos atrás, também aprendeu a mesma lição e agora a está transmitindo para todos aqueles que vierem a lê-lo e, no final, alguns desses leitores, um dia, ensinarão essa mesma lição a outros irmãos humanos. Compreendes, agora, que não será necessário mais do que uma única vida como um ser humano, neste Planeta Terra, para que aprendas tudo e que possas transmitir esse conhecimento a todos os seres humanos, nos próximos milênios vindouros? É só uma questão de tempo, não concordas, filho meu?

Agora, se quem deste aprendizado tomar conhecimento e, assim mesmo, não desejar progredir, não quiser deixar de lado as “muletas” que está usando ou não quiser aceitar essa verdade tão cristalina, o problema e a responsabilidade já não serão mais teus. Tu e todos os demais que estão transmitindo esse conhecimento já cumpriram as suas partes. Que os outros, os que dele estão tomando conhecimento, cumpram as suas. Para isso são livres e possuem o discernimento e o livre-arbítrio suficientes para fazer suas escolhas e nada tens com isso. Entendeste, filho meu?

A evolução da forma - Rumi

Toda forma que vês
tem seu arquétipo no mundo sem-lugar.
Se a forma esvanece, não importa,
permanece o original.

As belas figuras que viste,
as sábias palavras que escutaste,
não te entristeças se pereceram.

Enquanto a fonte é abundante,
o rio dá água sem cessar.
Por que te lamentas se nenhum dos dois se detém?

A alma é a fonte,
e as coisas criadas, os rios.
Enquanto a fonte jorra, correm os rios.
Tira da cabeça todo o pesar
e sorve aos borbotões a água deste rio.
Que a água não seca, ela não tem fim.

Desde que chegaste ao mundo do ser,
uma escada foi posta diante de ti, para que escapasses.
Primeiro foste mineral;
depois, te tornaste planta,
e mais tarde animal.
Como pode ser isto segredo pra ti?

Finalmente foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo - um punhado de pó -
vê quão perfeito se tornou!

Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto hás de regressar como anjo;
depois disso, terás terminado de vez com a terra,
e tua estação há de ser o céu.

Passa denovo pela vida angelical,
entra naquele oceano,
que tua gota se torne mar,
cem vezes maior que o Mar de Oman.

Abandona este filho que chamas corpo
e diz sempre "Um" com toda a alma.
Se teu corpo envelhece, que importa?
Ainda é fresca tua alma.

Promessa - Rumi

Noite passada fiz outra vez a promessa:
jurei por tua vida jamais desviar os olhos de tua face.

Se golpeares com a espada, não me esquivarei.
Não buscarei cura em mais ninguém,
pois a causa de minha dor é ver-me longe de ti.

Joga-me ao fogo;
se deixar escapar um único suspiro
não serei homem de verdade.

Surgi do teu caminho como pó.
Retorno agora ao pó do teu caminho.

Neste frio - Rumi

No frio e na chuva meu amado é mais doce,
traz a beleza no peito e o amor na cabeça.
A beleza no peito – e como!
Nobre, digno, gracioso,
suave como uma flor.

Corramos à casa do amado neste frio
– jamais nasceu de mulher alguém como ele.

Beijemos seus lábios nesta neve
– o açúcar e a neve refrescam o coração.

Não tenho mais forças, perdi de vez o controle,
levaram-me para longe e já me trouxeram de volta.

Quando a face do amado entra de súbito no coração,
o coração se desloca.

Deus é Maior!

Não penses - Rumi

Não penses. Não penses.
Os pensamentos são como a chama
que de alto a baixo tudo consome.

Perde a razão,
endoidece de embriaguez e assombro,
e de cada broto nascerá a cana-de-açúcar.

A bravura é demência, tira-a da cabeça, renuncia!
Como o leão e os homens, renega as vãs esperanças.
Os pensamentos são armadilhas,
é proibido desperdiçá-los.

Para que tanto sacrifício por migalhas?
Se não te absténs desse alimento,
é inútil querer livrar-se de tais ardis.
Se a avidez reclama, sê surdo aos seus apelos.

Morre no amor - Rumi

Morre agora, morre!
Morre neste amor.
Quando morto estiveres, nova vida receberás.

Morre agora, morre!
Não temas esta morte,
pois todos hão de elevar-se da terra
e tocar os céus.

Morre agora, morre!
Liberta-te de vez da alma carnal:
ela é a grade, tu o prisioneiro.
Toma a ferramenta e cava o chão da prisão,
quando dela tiveres escapado, serás príncipe e rei.

Morre agora, morre diante do belo Rei!
E quando morto estiveres ante tal majestade,
hás de tornar-te insigne senhor.

Morre agora, morre!
E remove esta nuvem.
Quando saíres de trás dela
serás radiante lua cheia.

Silêncio! Faz silêncio!
O silêncio é o sinal da morte.
Em nome da vida
não fujas mais do que permanece silêncio!

O desejo é um ídolo - Rumi

O amor não vive na ciência ou na instrução,
não habita papéis ou pergaminhos.
O assunto do vulgo 
não há de ser o caminho dos amantes.

O ramo do amor antecede a eternidade
e suas raízes vão além do eterno.
Essa árvore não se apóia no céu nem na terra
nem sobre qualquer coluna.

Depusemos a razão
e traçamos um limite à paixão,
pois a majestade do amor não se conforma
a tal razão ou tal costume.

Enquanto sentires desejo,
sabe que cultuas um ídolo.
Quando se é verdadeiramente amado,
cessa de vez o espaço para as carências deste mundo.

O marinheiro está sempre na prancha
do temor e da esperança;
Idos prancha e marinheiro,
nada resta além do mergulho fatal.

Shams de Tabriz, és de uma só vez mar e pérola,
e teu ser nada menos que o segredo do Criador.

Encontro de almas - Rumi

Vem.
Conversemos através da alma.
Revelemos o que é secreto aos olhos e ouvidos.

Sem exibir os dentes,
sorri comigo, como um botão de rosa.
Entendamo-nos pelos pensamentos,
sem língua, sem lábios.

Sem abrir a boca,
contemo-nos todos os segredos do mundo,
como faria o intelecto divino.

Fujamos dos incrédulos
que só são capazes de entender
se escutam palavras e vêem rostos.

Ninguém fala para si mesmo em voz alta.
Já que todos somos um,
falemos desse outro modo.

Como podes dizer à tua mão: "toca",
se todas as mãos são uma?
Vem, conversemos assim.

Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma.
Fechemos pois a boca e conversemos através da alma.
Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.

Vem, se te interessas , posso mostrar -te.

Tu e Eu - Rumi

Feliz o momento em que nos sentarmos no palácio,
dois corpos, dois semblantes, uma única alma
- tu e eu.

E ao adentrarmos o jardim, as cores da alameda
e a voz dos pássaros nos farão imortais
- tu e eu.

As estrelas do céu virão contemplar-nos
e nós lhe mostraremos a própria lua
- tu e eu.

Tu e eu, não mais separados, fundidos em êxtase,
felizes e a salvo da fala vulgar
- tu e eu.

As aves celestes de rara plumagem
por inveja perderão o encanto
no lugar em que estaremos a rir
- tu e eu.

Eis a maior das maravilhas: que tu e eu,
sentados aqui neste recanto, estejamos agora
um no Iraque, outro em Khorassan
- tu e eu.



A viagem do sonho - Rumi

Com a oração da noite, 
quando o sol declina e se esconde, 
fecha-se a via dos sentidos 
e abre-se o caminho ao não-visto.

O anjo do sono conduz então os espíritos 
como o pastor o seu rebanho. 
Para além do espaço, em pradarias transcendentes, 
que cidades, que jardins ele nos mostra!

Quando o sono nos rouba a imagem do mundo, 
o espírito contempla mil formas e maravilhas. 
É como se habitasse desde sempre essas paragens, 
já não recorda a vida na terra, 
nem sente cansaço ou tristeza.

O coração liberta-se por inteiro 
do peso do mundo, de toda a opressão, 
e já nem percebe os cuidados que lhe são dedicados.

O pão do meu verso - Rumi


Meu verso é como o pão do Egito:
a noite passa sobre ele e já não podes mais comê-lo.

Devora-o enquanto está fresco,
antes que o recubra a poeira do deserto.

Seu lugar é o clima cálido do coração,
ele não sobrevive ao gelo deste mundo.

É como o peixe na terra seca:
estremece por um instante e logo perece.

Se queres comê-lo e o imaginas fresco,
terás de invocar muitos ídolos.

O que agora bebes é tão somente tua imaginação.
Isto não é ilusão, companheiro!

O mundo além das palavras - Rumi

Dentro deste mundo há um outro mundo
 impermeável às palavras. 
Nele, nem a vida teme a morte,
 nem a primavera dá lugar ao outono. 

Histórias e lendas surgem dos tetos e paredes,
 até mesmo as rochas e árvores exalam poesia. 
Aqui, a coruja transforma-se em pavão,
 o lobo, em belo pastor. 

Para mudar a paisagem, 
basta mudar o que sentes; 
e se queres passear por esses lugares, 
basta expressar o desejo. 

Fixa o olhar no deserto de espinhos. 
- Já é agora um jardim florido! 
Vês aquele bloco de pedra no chão? 
- Já se move e dele surge a mina de rubis! 

Lava tuas mãos e teu rosto 
nas águas deste lugar, 
que aqui te preparam um fausto banquete. 
Aqui, todo ser gera um anjo;
 e quando me vêem subindo aos céus, 
os cadáveres retornam à vida. 

Decerto viste as árvores crescendo da terra, 
mas quem há de ter visto o nascimento do Paraíso? 
Viste também as águas dos mares e rios,
 mas quem há de ter visto nascer 
de uma única gota d'água 
uma centúria de guerreiros? 

Quem haveria de imaginar essa morada, 
esse céu, esse jardim do paraíso? 
Tu, que lês este poema, traduze-o. 
Diz a todos o que aprendeste 
sobre este lugar.

13.11.10

A lua de Tabriz - Rumi


 Com a maré da manhã surgiu no céu uma lua.
De lá desceu e fitou-me.

Como o falcão que arrebata o pássaro, 
essa lua agarrou-me e cruzou o céu.
Quando olhei para mim, já não me vi:
naquela lua meu corpo se tornara
por graça, sutil como a alma.

Viajei então em estado de alma
e nada mais vi senão a lua,
até que o segredo do saber divino
me foi por inteiro revelado:
as nove esferas celestes fundiram-se na lua
e o vaso do meu ser dissolveu-se inteiro no mar.

Quando o mar quebrou-se em ondas,
a sabedoria divina lançou sua voz ao longe.
Assim tudo ocorreu, assim tudo foi feito.

Logo o mar inundou-se de espumas,
e cada gota de espuma
tomou forma e corpo.

Ao receber o chamado do mar,
cada corpo de espuma se desfez
e tornou-se espírito do oceano.

Sem a majestade de Shams de Tabriz
não se poderia contemplar a lua
nem tornar-se mar.




Isto temos agora - Rumi


Isso que temos agora
não é imaginação.

Isso não é
tristeza ou alegria.

Não é um estado de julgamento,
ou uma exaltação,
ou tristeza.

Esses vêm e vão.
Esta é a presença que não.

O Sabor da Manhã - Rumi


Tempo de a faca deslizar da bainha
como os peixes, de onde nadam

Estando cada vez mais perto, é o desejo do corpo. 
Não deseja a união!

Há uma proximidade além disso. 
Por que Deus iria querer um segundo Deus? 

Perca-se no amor de tal modo que o liberte de qualquer conexão.
O amor é a luz da alma, o sabor da manhã, ausente de mim, ausente de nós,
sem pretensão de ser. 

Estas palavras são a fumaça do incêndio, desprende como perdoa seus defeitos,
como os olhos em silêncio, lágrimas, rosto.    

O amor não pode ser dito.